Mulheres Negras Empreendedoras e a Moda Circular
A moda, presente em nosso dia a dia, ganha um novo significado quando falamos sobre moda circular. Neste contexto, mulheres negras estão abrindo caminho por meio de práticas sustentáveis e transformadoras. Retalhos de tecidos se transformam em empreendimentos que não apenas geram renda, mas também sustentam famílias e realizam sonhos. Em uma recente reportagem, o g1 entrevistou três dessas empreendedoras que atuam na Região Metropolitana de Goiânia e fazem a diferença na produção responsável.
Essas mulheres trabalham para combater uma realidade enfrentada por muitas: ter um guarda-roupa abarrotado, mas sentir que não há nada adequado para vestir. O crescimento da internet e das plataformas online de compra e venda facilitou a proliferação de promoções, mas, em meio a isso, surgem importantes questionamentos: quem são as pessoas que fazem minhas roupas? De que materiais elas são feitas? E para onde vão quando não são mais utilizadas?
A moda circular é uma abordagem que busca prolongar a vida útil das roupas e tecidos, diminuindo o desperdício e os impactos no meio ambiente. Essa filosofia promove reutilização, consertos e reciclagem, garantindo que os recursos retornem para a cadeia produtiva, ao invés de serem descartados. Durante uma conversa com o g1, Ana Fernanda Souza, coordenadora de diversidade do Comitê Racial do Fashion Revolution Brasil, enfatizou que a moda circular deve ser considerada desde o design das peças.
“Desde o processo criativo, é essencial escolher matérias-primas e fibras que sejam fáceis de reciclar ou que possam ser reparadas, para que a roupa não se torne obsoleta rapidamente e vá para o lixo. Caso chegue ao fim de sua vida útil, é fundamental que possa ser devidamente reciclada, sem gerar resíduos”, destacou.
Desafios do Empreendedorismo Feminino na Moda
Em contraste com grandes empresas do setor, as pequenas empreendedoras vêm se destacando. Segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Goiás (Sebrae-GO), as mulheres negras correspondem a 53% das empreendedoras em Goiás. Contudo, essas mulheres ainda enfrentam diversos desafios em sua trajetória. O Sebrae se apresenta como uma ponte para o fortalecimento dos negócios. Uma das iniciativas do Sebrae, o Programa Plural, é voltado para apoiar mulheres, indígenas, negros, quilombolas e pessoas com deficiência.
Esse programa visa promover o empreendedorismo como uma ferramenta de transformação social, ampliando as oportunidades para grupos historicamente marginalizados. Thais Oliveira, gestora do programa, mencionou que 33% dos empreendedores negros são mulheres, que apresentam maior nível de escolaridade em relação aos homens negros, mas ainda assim enfrentam disparidades salariais significativas.
“Essas mulheres costumam atuar no segmento da moda afro, uma vertente da moda autoral que resgata a identidade cultural negra e a incorpora nas peças, seja por meio das cores ou na comunicação visual”, comentou Thais. Apesar do crescimento na participação delas no setor, ainda existem barreiras, como dificuldade de acesso a mercados maiores e capital para investimento, além da necessidade de fortalecimento das marcas.
Histórias de Transformação na Moda Afro
Nirce Pereira dos Santos, de 54 anos, é uma dessas histórias inspiradoras. Em Aparecida de Goiânia, ela encontrou na costura uma forma de sustentar sua família. Após trabalhar em regime CLT e cursar pedagogia, a necessidade de estar próxima aos filhos a levou a vender roupas. Sem saber costurar, ela se uniu a outras mulheres para dar vida às suas criações. Com o tempo, aprendeu a costurar e deu início à sua própria marca, a Njinga, uma referência à resistência africana.
“O que começou como uma necessidade se transformou em uma marca que homenageia a ancestralidade africana. Sempre buscamos reaproveitar retalhos, criando novos produtos e evitando desperdícios”, contou Nirce.
A Njinga não apenas gera lucro, mas também promove uma consciência ambiental e social, mostrando que a moda pode ser uma poderosa ferramenta de mudança. A trajetória de outras empreendedoras, como Milleide Lopes e Theodora Alexandre, segue a mesma linha de valorização do patrimônio cultural e do reaproveitamento de materiais, refletindo um movimento crescente por uma moda mais ética e sustentável.
Essas mulheres demonstram que, ao transformar retalhos em produtos inovadores, não só contribuem para a economia, mas também promovem um impacto positivo na sociedade. A moda circular é, sem dúvida, um passo importante para um futuro mais sustentável e inclusivo.
