Santa Catarina e o novo protagonismo nas aquisições de tecnologia
Nas últimas semanas, o cenário tecnológico de Santa Catarina ganhou destaque não apenas pelas startups que captam investimentos, mas pelo movimento crescente das empresas compradoras. A Senior Sistemas, por exemplo, anunciou a maior aquisição da sua história, investindo R$ 318,7 milhões na compra da Salú, uma HRtech especializada em saúde ocupacional. Já a Selbetti realizou três aquisições em um curto período, enquanto a fintech Asaas, sediada em Joinville, investiu R$ 150 milhões para adquirir a HelenaCRM.
Essas operações, junto com a atuação da Starian/Softplan, mostram como as companhias catarinenses têm adotado a consolidação de mercado como estratégia de crescimento. Essas empresas contam hoje com caixa robusto, carteira de clientes consolidada e capacidade de integrar novos produtos, abrindo caminhos mais ágeis para expansão e liquidez para negócios que, isoladamente, demorariam mais para avançar.
Mais do que captação: o papel das compradoras no ecossistema
O amadurecimento do ecossistema tecnológico não se manifesta apenas na criação de novas startups ou em rodadas de investimento com valuations bilionários. Muitas vezes, esse desenvolvimento aparece quando empresas locais começam a adquirir outras, integrando soluções e reorganizando setores.
A fintech Asaas exemplifica essa tendência, sendo uma das principais compradoras da região. Fundada em Joinville, a Asaas ainda mira alcançar o valuation de US$ 1 bilhão, mas, independentemente disso, já consolidou sua posição como consolidadora através da aquisição da HelenaCRM, sua quinta compra e a segunda anunciada em 2026.
Já a Selbetti, também com sede em Joinville, adotou o M&A como motor de expansão, contabilizando 47 aquisições desde 2014, uma média de quase quatro operações anuais. Esse ritmo acelerado permitiu a construção de um portfólio diversificado que engloba infraestrutura, outsourcing de impressão, automação, inteligência artificial, cibersegurança e experiência do cliente.
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A Senior Sistemas, de Blumenau, acumula mais de 30 operações de M&A e investimentos na última década, ampliando sua atuação em áreas que vão da logística ao agronegócio, além da presença geográfica. Já a Starian/Softplan captou R$ 640 milhões em 2025 para expandir sua atuação via aquisições, consolidando-se como uma força relevante desde o começo da década.
O mercado de M&A mais seletivo e oportunidades para compradores capitalizados
O Brasil finalizou 2025 com 1.581 fusões e aquisições, mantendo o mesmo ritmo do ano anterior. O setor de tecnologia liderou, representando cerca de 40% dessas operações, segundo a KPMG. Em um cenário de juros elevados, a reprecificação dos ativos abriu espaço para compradores com capital disponível, especialmente no segmento tecnológico, o que explica o fortalecimento das empresas consolidadoras.
Após um período de abundância de recursos no início da década, os investidores passaram a exigir mais eficiência e capacidade de geração de receita. Isso torna a venda ou integração a plataformas maiores uma alternativa mais viável para muitas empresas do que captar novas rodadas para crescer sozinhas.
Para negócios bem estruturados, com bons produtos e equipes especializadas, mas que enfrentam dificuldades para financiar a expansão, o mercado oferece oportunidades estratégicas. Muitas vezes, esses ativos são avaliados com critérios mais racionais que nos anos anteriores, abrindo espaço para aquisições que fazem sentido operacional e financeiro.
Desafios e impactos da consolidação para o ecossistema regional
O amadurecimento de um ecossistema depende não só da existência de compradores, mas também da capacidade de gerar liquidez, reorganizar mercados e criar novas opções de crescimento. Para Santa Catarina, ter consolidadoras locais significa ampliar as possibilidades de saída para empreendedores e investidores, mantendo parte da inteligência e das decisões estratégicas próximas do ambiente em que os negócios nasceram.
No entanto, cada aquisição não deve ser vista automaticamente como um sinal de fortalecimento do ecossistema. A concentração de mercado pode elevar barreiras para empresas iniciantes e dificultar o crescimento por vias independentes.
Além disso, o desafio operacional da integração é grande. A conclusão da compra é apenas o começo. Integrar produtos, equipes, culturas e carteiras de clientes sem perder eficiência é o verdadeiro teste, e nem todas as aquisições geram as sinergias esperadas ou resultam em propostas claras para o mercado.
Portanto, embora a presença de compradores locais indique maturidade, um ecossistema saudável precisa seguir produzindo novas empresas, disponibilizando capital para estágios iniciais e criando condições para que bons negócios possam escolher entre vender, captar investimentos ou crescer de forma autônoma.
Essa é a reflexão que fica para quem acompanha o mercado de tecnologia em Santa Catarina: não apenas quais empresas serão adquiridas, mas se o ambiente continuará propício para formar as próximas compradoras.
