Clima e natureza como ativos econômicos
O custo do capital, o acesso a mercados, a eficiência operacional e a localização de investimentos no Brasil já são fortemente influenciados por questões relacionadas ao clima e à natureza. À medida que o país se aproxima de 2027, essa realidade se torna ainda mais evidente, com regras que começam a precificar essas vantagens comparativas.
Embora alguns ainda vejam a agenda ambiental como uma questão ideológica, filantrópica ou de boas práticas, os dados oficiais mostram que clima e natureza impactam diretamente o balanço econômico, o custo do capital e a competitividade — temas que pertencem à política econômica e, portanto, ao âmbito do Estado.
É papel do Congresso Nacional, que tomará posse em fevereiro, reconhecer esses temas como ativos estratégicos para a economia brasileira.
Vantagem competitiva consolidada
Em 2025, as fontes renováveis representaram 86,8% da Oferta Interna de Energia Elétrica (OIEE) no Brasil, percentual que supera as médias globais e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O Fundo Monetário Internacional (FMI) reconhece a matriz elétrica brasileira como uma das mais limpas do mundo e destaca que a transição para uma economia de baixo carbono pode impulsionar o crescimento econômico e atrair investimentos de médio prazo.
Essa eletricidade limpa reduz o risco para quem produz no Brasil, criando um atrativo para investidores globais que buscam descarbonizar suas cadeias de valor. A economia real depende diretamente do capital natural e do clima, mesmo quando esses fatores não são contabilizados formalmente.
Para que esse ativo seja valorizado, são necessárias regras que se mantenham estáveis ao longo dos mandatos, pois investidores de longo prazo buscam previsibilidade, que só pode ser garantida por políticas de Estado.
Incentivos fiscais e eficiência operacional
A aprovação do regime especial para data centers (Redata) ilustra essa lógica em prática. O Congresso reconheceu a vantagem comparativa brasileira ao condicionar benefícios fiscais ao uso predominante de eletricidade proveniente de fontes renováveis ou de baixa emissão, além de estabelecer um índice rigoroso de eficiência hídrica para o resfriamento dos equipamentos.
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Energia limpa e disponibilidade de água já são critérios econômicos para o acesso a incentivos. O próprio prospecto do IPO da Anthropic destaca esses recursos como essenciais para a continuidade dos serviços, apontando que temperaturas elevadas podem aumentar o consumo e os custos operacionais.
No comércio internacional, regras como o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM) da União Europeia exigem transparência e precificam emissões de gases de efeito estufa, enquanto o Regulamento de Due Diligence da UE (EUDR) demanda comprovação da ausência de desmatamento nas cadeias produtivas. A partir de fevereiro de 2027, o Passaporte Digital de Produto começará a exigir informações detalhadas sobre produtos como baterias de grande porte.
Clima e natureza no centro das decisões financeiras
Dados ambientais verificáveis se tornam moeda corrente nas novas regras globais, enquanto a matriz elétrica limpa e a disponibilidade hídrica funcionam como lastro para esses ativos. Se negócios brasileiros comprovarem essas vantagens de forma auditável, o país poderá ver sua competitividade refletida em preços mais atrativos.
Esse tipo de evidência é fundamental para exportadores e investidores, e depende de uma base legal sólida e de apoio institucional que ultrapasse governos e mandatos.
Captação de investimentos e crescimento sustentável
Regras claras atraem capital. O Eco Invest Brasil já mobilizou mais de R$ 140 bilhões até o quarto leilão, sendo cerca de R$ 63 bilhões provenientes de captação no exterior. Além disso, o Tesouro Nacional realizou sua terceira emissão de título sustentável, no valor de US$ 1,5 bilhão com vencimento em 2033, direcionando os recursos para projetos de mitigação das mudanças climáticas e conservação ambiental.
Em sua consulta de 2026 ao Brasil, o FMI destaca o Plano de Transformação Ecológica como um fator capaz de elevar o crescimento econômico acima da projeção de 2,4% para aquele ano — um reconhecimento claro da relevância econômica dessa agenda.
Quanto aos investimentos estrangeiros em soluções baseadas na natureza, a expectativa gira em torno da regulamentação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). Esse sistema deve impulsionar mercados voluntários ligados a florestas, restauração ambiental, agronegócio e tecnologias inovadoras, como biochar e intemperismo rochoso. Segurança jurídica, integridade e rastreabilidade serão essenciais para fortalecer a confiança dos investidores e garantir o aporte de capital.
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Fonte: londrinagora.com.br
Gestão de riscos e oportunidades já incorporadas ao sistema financeiro
A importância econômica das questões climáticas e ambientais já está refletida na regulação do sistema financeiro. Bancos são obrigados a gerir riscos e oportunidades relacionados a clima e natureza, divulgando informações financeiras relevantes. Seguradoras devem apresentar relatórios de sustentabilidade, enquanto fundos de pensão precisam considerar riscos ambientais em seus investimentos e informar os impactos identificados.
No mercado de capitais, companhias abertas têm a opção de divulgar dados financeiros materiais ligados a essas questões, e devem justificar a não divulgação ao mercado.
Instituições como o Itaú reconhecem que crédito e equity hoje dependem de dados sobre riscos e oportunidades ambientais, reforçando o caráter econômico e não ideológico dessa agenda.
O papel do Congresso na consolidação da agenda verde
O Congresso que assume em 2027 tem a oportunidade de impulsionar a economia real e o sistema financeiro nas demandas relacionadas a clima e natureza. Entre a eleição e a posse, existe uma janela para definir uma pauta econômica que responda às necessidades do país.
É fundamental que parlamentares, lideranças e consultorias legislativas se aprofundem nos temas econômicos ligados ao meio ambiente, compreendendo as demandas do setor produtivo, financeiro e da sociedade.
Para que a 58ª Legislatura inicie com políticas públicas robustas e alinhadas à transição para uma economia de baixo carbono, o trabalho já deve começar. Aos cidadãos cabe cobrar seus representantes para que atuem nessa agenda estratégica, garantindo benefícios para toda a população.
