Origem do problema e impacto na água de Joinville
O Rio Cubatão, que nasce na Serra Dona Francisca e corre próximo à SC-418, abastece mais de 75% dos lares em Joinville. Nele, um microrganismo invisível a olho nu provoca episódios de cheiro e gosto de terra na água, causando desconforto ao paladar, embora seja inofensivo à saúde pública. Essa pequena presença tem mudado a maneira como a água é tratada na cidade.
Um investimento de R$ 600 mil levou à implantação do carvão ativado no sistema de tratamento e ao treinamento de funcionários como sommeliers de água para identificar alterações no sabor e odor. A Companhia Águas de Joinville também iniciou uma pesquisa científica para identificar com precisão o microrganismo, definindo seu gênero e espécie, o que pode ajudar a entender as causas da sua proliferação no Rio Cubatão.
Fatores que influenciam o cheiro e gosto na água tratada
Segundo o engenheiro sanitário Maurício Luiz Sens, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), microalgas, cianobactérias e outros microrganismos são causas comuns de alterações no sabor e odor da água. A contaminação pode se dar por aves migratórias, lançamentos industriais e resíduos agrícolas, como agrotóxicos e fertilizantes, que eventualmente chegam aos corpos d’água.
A professora Sandra Medeiros, da Univille, destaca que infiltrações e condições da tubulação que leva a água às residências também podem contribuir para o problema, dificultando sua localização e solução.
Microrganismo do Rio Cubatão e suas particularidades
Na Estação de Tratamento de Água (ETA) Cubatão, o responsável pelo cheiro e gosto característico foi identificado como um microrganismo do grupo actinomiceto, embora seu gênero e espécie ainda não tenham sido definidos. Diferente de outras cidades abastecidas por represas, Joinville conta com um rio de curso rápido, o que altera o ambiente para esses microrganismos.
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A pesquisadora Liana Ruwer, bioquímica da Companhia Águas de Joinville, explica que esse microrganismo libera uma pequena quantidade da molécula 2-MIB, responsável pelo odor e sabor de terra ou barro na água consumida. Apesar do incômodo sensorial, não há risco à saúde.
Por que a ETA Piraí não apresenta o mesmo problema
O gerente de Água da Companhia, Lucas Emanuel Martins, informa que a Estação de Tratamento Piraí não sofre com esses episódios porque seu manancial é uma nascente na serra praticamente livre de interferência humana. Já o Rio Cubatão está inserido em uma bacia com diversas atividades humanas, como residências e criação de animais, que favorecem a proliferação dos microrganismos.
Como o carvão ativado combate o problema
O carvão ativado é apontado pelos especialistas como a principal solução para eliminar o gosto e cheiro desagradáveis. Pode ser aplicado em pó, que é mais fácil de incorporar em estações já existentes, ou em forma granular, que atua como uma etapa adicional no tratamento, sendo indicado para instalações novas.
O professor Sens destaca que o carvão ativado em pó é eficiente para capturar poluentes como agrotóxicos, fármacos e microrganismos, embora tenha um custo elevado devido à oferta limitada no mercado. Já o carvão granular, apesar de mais complexo de instalar, pode remover contaminantes sofisticados que não são detectados nas análises comuns.
A professora Medeiros comenta que outras tecnologias, como ultravioleta e processos oxidativos avançados, existem, mas são mais caras e raramente utilizadas em estações municipais.
Investimentos e treinamento para melhorar a qualidade da água
A Companhia Águas de Joinville investiu R$ 600 mil para implantar o carvão ativado em pó no tratamento da água, com a estrutura concluída em maio. O uso desse material aumenta o custo dos insumos em quase seis vezes durante o período de aplicação, consumindo cerca de quatro toneladas diárias.
Funcionários foram treinados para atuar como sommeliers de água, analisando o cheiro e sabor por meio de degustação às cegas, identificando as amostras afetadas pelo microrganismo e auxiliando no controle da qualidade.
Pesquisas para identificar o microrganismo e entender sua proliferação
A Companhia também tem investido em pesquisas para aprimorar o tratamento e descobrir detalhes sobre o microrganismo do grupo actinomiceto. Uma empresa terceirizada realiza análises para simular processos e testar dosagens de produtos químicos.
O gerente Lucas Martins explica que o objetivo atual é identificar sazonalidades e condições que favorecem a reprodução do microrganismo, como o que ele se alimenta e o ambiente ideal para sua multiplicação. Essas informações ajudarão a compreender por que a molécula 2-MIB aparece em maior quantidade em certas épocas do ano.
Até o momento, apenas o grupo do microrganismo foi identificado, permanecendo em estudo seu gênero e espécie para definir estratégias mais eficazes no tratamento da água em Joinville.
