A Influência de Milton Santos na Geografia
José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – O renomado geógrafo Jaime Tadeu Oliva, aluno e colaborador de Milton Santos, atualmente leciona e realiza pesquisas no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP). Coordenando o Arquivo Milton Santos, Oliva oferece uma visão abrangente sobre a obra do mestre, destacando seu projeto intelectual e suas contribuições no campo da geografia.
A Impressão de Oliva sobre Milton Santos
Ao refletir sobre a trajetória de Milton Santos, Oliva ressalta um aspecto que lhe chama atenção: desde seu início como professor de geografia, Santos demonstrou um projeto intelectual claro e definido. “Isso é extremamente raro”, afirma Oliva. “Geralmente, educadores e pesquisadores vão se deixando levar pelas circunstâncias. No entanto, a vida de Milton foi repleta de desafios, e ele conseguiu manter seu projeto ao longo do tempo.” A obra de Santos, quando analisada, revela que esse projeto, que ele estabeleceu em sua juventude, não só se manteve, mas também se desenvolveu ao longo de sua carreira.
O Projeto Intelectual de Milton Santos
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Quando se trata dos grandes contornos desse projeto, Oliva identifica três linhas principais que nortearam o pensamento de Santos. A primeira delas é a busca por entender o que realmente é a geografia. Nos anos 1950, Santos começou a questionar as bases teóricas da disciplina, propondo uma reflexão sobre a prática da geografia enquanto ciência social. “Ele criticava a influência de metodologias das ciências naturais nas ciências sociais e questionava a visão tradicional que via a geografia apenas como uma descrição de espaços”, explica Oliva.
De acordo com Oliva, Santos defendia que o espaço não é apenas um palco para a ação humana, mas sim um elemento ativo que influencia as dinâmicas sociais. “Quando alguém constrói uma estrada, isso não é feito de forma aleatória. Há intenções sociais por trás disso, e isso muda a sociedade”, destaca.
Movimento Internacional e Inovações Teóricas
O impacto do pensamento de Santos não se limitou ao Brasil. Oliva comenta que, durante seu exílio, ele se conectou com o movimento geográfico que já estava em curso na Europa, interagindo com escolas de pensamento da França e dos Estados Unidos. Contudo, seu papel foi muito mais que um mero seguidor; ele foi um dos precursores nesse movimento. “Ele tinha uma frase extraordinária: ‘O verdadeiro intelectual é o primeiro a trair as suas próprias ideias’”, lembra Oliva, enfatizando a disposição de Santos para revisar e atualizar seu próprio pensamento ao longo do tempo.
Transformando a Geografia em Ciência Social
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Fonte: parabelem.com.br
Em síntese, Oliva acredita que Santos foi fundamental na transformação da geografia em uma ciência social. “Ele dizia que a geografia não estuda o espaço, mas sim a sociedade, olhando por meio da lente do espaço para compreendê-la em sua totalidade”, afirma. Essa abordagem impactou outras disciplinas, pois o espaço, muitas vezes negligenciado na sociologia e na história, passou a ser considerado um elemento central na análise social.
O Estudo do Mundo Urbano
A segunda linha de força identificada por Oliva é o estudo das dinâmicas urbanas. Desde o início de sua carreira, Santos se interessou por cidades em diferentes partes do mundo, incluindo África, Oriente Médio e América Latina. Durante seu exílio, ele teve a oportunidade de viver e trabalhar em diversas cidades, onde se deparou com a questão intrigante de como grandes centros urbanos podiam existir em países com economias não-industrializadas. “Santos notou que mesmo cidades como Kinshasa, sem uma base econômica sólida, possuem atividades internas que sustentam sua economia urbana”, diz Oliva.
Esse raciocínio levou Santos a formular a ideia de ‘circuito inferior da economia urbana’, que foi abordada em seu livro “O espaço dividido”, publicado em 1978, onde apresenta as interações entre os diferentes circuitos econômicos nas cidades.
A Centralidade da Técnica e sua Relevância
A terceira vertente do pensamento de Santos, conforme Oliva, é a centralidade da técnica nas relações sociais e no espaço. Santos argumentava que a análise do espaço e das relações sociais não pode ser feita sem considerar o papel dos objetos técnicos. “Ele afirmava que os espaços são também depósitos de conhecimento e refletiam interações técnicas e sociais”, explica Oliva. Santos interagiu com figuras proeminentes do campo da técnica e da engenharia, e já na década de 1990, ele previu que a globalização estaria atrelada ao controle das técnicas, o que, por sua vez, subordinava países menos desenvolvidos.
A Postura Crítica de Milton Santos
Por fim, Oliva destaca a postura crítica de Santos em relação ao sistema universitário. “Ele defendia que o verdadeiro estudante deve ter um pensamento próprio. Para ele, existem dois tipos de professores: os que apenas leem e os que realmente pensam”, conclui. Essa crítica à burocratização da universidade e à falta de espaço para reflexões profundas é um legado que permanece relevante até hoje.
