Aquecimento acelerado da Europa segundo o Copernicus
A Europa tem experimentado um aumento da temperatura média superior a qualquer outro continente nas últimas décadas, segundo dados do serviço europeu de monitoramento climático Copernicus. A temperatura do continente cresceu aproximadamente 0,56°C por década desde meados dos anos 1990, mais que o dobro da média global. Essa elevação rápida explica a frequência crescente e a intensidade das ondas de calor registradas recentemente, como o segundo episódio extremo em apenas um mês na Europa Ocidental.
O principal motor desse aquecimento é o aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera — consequência direta da queima de combustíveis fósseis e de outras atividades humanas. No entanto, fatores regionais intensificam esse fenômeno na Europa, tornando o efeito mais pronunciado em relação a outras partes do mundo.
Fatores regionais que intensificam o aquecimento
Um desses fatores é a aceleração do derretimento do gelo marinho no Ártico. A redução da cobertura de gelo, que tradicionalmente refletia a radiação solar, expõe uma superfície oceânica mais escura que absorve mais calor, reforçando o aumento da temperatura regional. Durante o inverno, a Europa também tem registrado temperaturas atípicas, influenciadas por essas mudanças no Ártico.
Outra questão relevante é a queda da poluição atmosférica. Políticas ambientais implementadas nas últimas décadas reduziram significativamente as emissões industriais, melhorando a qualidade do ar. Porém, essa redução diminuíu a quantidade de aerossóis — partículas que refletem parte da radiação solar de volta ao espaço. Com menos aerossóis, mais energia solar fica retida próxima à superfície, contribuindo para o aquecimento.
Além disso, a cobertura de neve no continente diminuiu drasticamente. Dados do Copernicus mostram que, em 2025, a área coberta por neve durante seu pico anual ficou cerca de um terço abaixo da média histórica. Menos neve significa menos reflexão da luz solar, com mais solo exposto absorvendo calor, especialmente em regiões como Escandinávia e a porção europeia da Rússia.
Ondas de calor mais duradouras e seus efeitos
Essas alterações na superfície terrestre e oceânica impactam também a dinâmica atmosférica. Pesquisas indicam que o aquecimento acelerado do Ártico reduz a diferença de temperatura entre o Polo Norte e o Equador, um fator crucial para os sistemas meteorológicos do Hemisfério Norte. Isso afeta a corrente de jato (jet stream), faixa de ventos fortes que orienta o deslocamento do clima.
Estudos recentes mostram que a corrente de jato tem se dividido mais frequentemente em dois ramos sobre a Europa. Entre eles, uma área de ventos mais fracos favorece que massas de ar quente permaneçam por longos períodos no continente. Esse bloqueio atmosférico pode transformar ondas de calor de poucos dias em eventos que duram semanas.
Um estudo de 2022 citado pelo The New York Times associa grande parte do aumento recente na frequência e intensidade dessas ondas de calor na Europa Ocidental a esse fenômeno chamado “corrente de jato dupla”. Embora ainda não haja consenso científico sobre o quanto as mudanças climáticas causadas por humanos aumentam a frequência desse padrão, pesquisadores concordam que o aquecimento global eleva as temperaturas-base, tornando os eventos extremos mais severos.
Recordes de temperatura e análise científica
A atual onda de calor na Europa tem batido recordes em vários países. No Reino Unido, as temperaturas chegaram a cerca de 35,5°C, marcando o dia mais quente já registrado para o mês de junho no país. Cientistas estão analisando dados de países como França e Reino Unido para entender o quanto as mudanças climáticas aumentaram a chance de eventos dessa magnitude.
Em entrevista ao The New York Times, a climatologista Lizzie Kendon destacou que novos recordes de temperatura já eram esperados devido ao aquecimento do planeta. O que chama atenção, segundo ela, é a margem cada vez maior com que essas marcas anteriores estão sendo superadas, indicando efeitos mais intensos das mudanças climáticas.
