Recorde de brasileiros no exterior e aumento da demanda por apoio
O Itamaraty divulgou um relatório consular anual que revelou a presença de quase 5,3 milhões de brasileiros vivendo fora do país no último ano, um crescimento de 110 mil pessoas em relação a 2024. Esse número reflete estimativas baseadas em registros locais fornecidos pelos consulados, sem diferenciar entre cidadãos em situação regular ou irregular. Ainda assim, a comunidade brasileira no exterior pode ser ainda maior, já que muitos imigrantes em situação irregular evitam o registro por receio de deportação.
Com o aumento do fluxo migratório, os pedidos de assistência consular cresceram 55%, chegando a 95 mil atendimentos. Essas demandas refletem as variadas dificuldades enfrentadas, como vulnerabilidade social, questões jurídicas, problemas emocionais, choque cultural e dificuldades de integração. O cenário ficou ainda mais complexo no ano passado, diante do endurecimento das políticas migratórias em países como os Estados Unidos, que deportaram milhares de brasileiros.
Navegantes: cuidado psicológico para imigrantes brasileiros
Em resposta a essa realidade, a psicóloga intercultural brasiliense Barbara Andrade criou em 2024 a Navegantes, projeto que oferece atendimento psicoterapêutico online em português para brasileiros em cerca de 40 países. A iniciativa surgiu da percepção de que a saúde mental costuma ser negligenciada durante a migração, pois os imigrantes concentram esforços em questões legais, financeiras e logísticas.
Com uma equipe de 15 psicólogos, a Navegantes atende atualmente 42 imigrantes regularmente, além de promover atividades coletivas como o Guia de Bordo — em parceria com a BRASA, voltado para estudantes brasileiros no exterior —, o Projeto Farol, direcionado a empresas e expatriados, e a Comunidade CAIS, que reúne cerca de 200 mulheres migrantes de língua portuguesa. O objetivo é combater o isolamento e fortalecer redes de apoio entre imigrantes.
Leia também: Renan Santos defende bomba nuclear para o Brasil assumir protagonismo global
Leia também: Bolshoi Brasil leva a dança de Joinville para São Paulo com espetáculo inesquecível
Desafios pessoais e relatos de imigrantes atendidos
Dayanne Lopes Vieira, cientista de dados de Vitória, Espírito Santo, vive na França há nove anos. Casada com um francês e mãe de uma menina de três anos, ela enfrentou dificuldades de adaptação cultural, profissional e emocional, especialmente nos primeiros anos e durante a maternidade. A participação na Comunidade CAIS foi fundamental para que pudesse se conectar com outras mulheres imigrantes e encontrar apoio emocional.
Já Larisse Milato, profissional de marketing que mora fora do Brasil há 13 anos e atualmente vive entre Paris e a Arábia Saudita, destaca a importância do acompanhamento psicológico especializado da Navegantes. Segundo ela, a equipe entende as dificuldades enfrentadas por brasileiros no exterior, tornando a terapia um componente essencial em sua rotina.
A catarinense Júlia Panazzolo, que vive na França há três anos, relata que a experiência migratória trouxe desafios inesperados, como solidão e adaptação ao idioma e cultura local. O suporte psicológico da Navegantes foi decisivo para que ela ganhasse confiança e se sentisse mais integrada, mesmo reconhecendo que a sensação de ser imigrante permanece.
Maioria das clientes é formada por mulheres e desafios específicos
A maior parte dos atendimentos na Navegantes é realizada por mulheres, que enfrentam desafios particulares relacionados à maternidade, relacionamentos interculturais e adaptação social. Barbara Andrade ressalta que essas questões merecem atenção especial. Atualmente, a psicóloga vive sua primeira experiência de imigração em Portugal, onde cursa mestrado, ampliando sua compreensão sobre o tema.
Leia também: Rádio 3.0 chega a Jaraguá do Sul com inovação na 105 FM, Rádio Jaraguá FM e Jovem Pan
Leia também: A Casa do Dragão: revelações impactantes no final da 3ª temporada
Além do atendimento a imigrantes, a Navegantes atua voluntariamente com refugiados no Brasil, retornados e deportados, que enfrentam as consequências das políticas migratórias mais rígidas. A psicóloga destaca que 2025 foi um ano especialmente desafiador para a população migrante, com muitos brasileiros retornando dos Estados Unidos e ainda vivenciando a condição de migrantes em seu próprio país.
Contexto de ondas anti-imigrantes e fortalecimento comunitário
Embora as brasileiras entrevistadas não tenham enfrentado grandes dificuldades burocráticas na França, relatos de discriminação, xenofobia e racismo são frequentes entre a comunidade migrante. O aumento das ondas anti-imigrantes em vários países, inclusive contra brasileiros em Portugal, contribui para a busca por apoio psicológico.
Barbara Andrade destaca a resiliência dos imigrantes, que muitas vezes transformam suas dificuldades em processos coletivos de fortalecimento. Redes sociais e comunidades como a criada por Júlia Panazzolo no Instagram, que reúne mais de 70 brasileiras na região da Riviera Francesa, são exemplos dessa mobilização. Essas iniciativas promovem encontros, laços de apoio e atividades culturais que facilitam a integração.
Além da Navegantes, outros serviços e os consulados brasileiros no exterior oferecem suporte para a comunidade, contribuindo para o fortalecimento da diáspora. A crescente busca por cuidados psicológicos interculturais reforça a importância de iniciativas que compreendam as especificidades da vida do imigrante brasileiro.
