IA no Controle de Riscos nas Indústrias Catarinenses
Na rotina intensa de uma siderúrgica com risco máximo, onde bobinas de aço pesam dezenas de toneladas e máquinas operam sem parar, identificar o perigo no momento exato pode ser decisivo. É nesse intervalo crítico que a inteligência artificial (IA) vem transformando a segurança do trabalho em Santa Catarina.
A ArcelorMittal, uma das maiores produtoras de aço do país, implantou 34 modelos de IA na unidade Vega, em São Francisco do Sul, para detectar riscos antes que se tornem acidentes, emitindo alertas ou até interrompendo equipamentos automaticamente. Essa operação movimenta cerca de 120 mil toneladas de aço mensalmente, exigindo uma vigilância constante e precisa.
Monitoramento Contínuo com Câmeras Inteligentes
Ao invés de depender só do olhar humano, a indústria conta com uma rede robusta de mais de 800 câmeras espalhadas pela planta. Cada uma delas não apenas registra imagens, mas interpreta padrões de movimento e comportamento em tempo real, detectando situações como presença em áreas proibidas, veículos próximos a linhas férreas, ausência de equipamentos de proteção individual (EPIs) e sinais de fadiga nos operadores.
Manoel Alves da Costa Junior, gerente-geral de Desenvolvimento e Inteligência Digital, destaca que esses modelos de IA ampliam a percepção humana, transformando grandes volumes de dados em alertas práticos e imediatos, o que aumenta significativamente a capacidade de prevenção.
De Alertas a Ações Automáticas
Os sistemas como o iMoveSafe e o RedZone identificam riscos específicos e, conforme o caso, geram respostas automáticas, como a parada de máquinas ou notificações para equipes de segurança. O RailSafe monitora a circulação ferroviária, garantindo que veículos parem antes de atravessar trilhos, enquanto outras soluções vigiam o uso correto dos EPIs e ambientes críticos, como salas elétricas.
José Daniel, supervisor em Higiene e Segurança do Trabalho, explica que essas tecnologias trabalham em conjunto para formar uma rede de prevenção capaz de identificar e sinalizar riscos que poderiam passar despercebidos, reforçando a segurança na operação.
Safety Tower: Centralizando Dados para Decisões Ágeis
A Safety Tower atua como uma central digital que integra informações geradas pelas diversas IAs instaladas na planta. Isso permite que a equipe de segurança acompanhe em tempo real os alertas, identifique padrões e tome decisões mais efetivas, antecipando possíveis problemas antes que eles aconteçam.
A analista Ana Suelem Sgarbi Deperon comenta que, antes da implementação dessa plataforma, os dados eram dispersos e pouco acessíveis. Agora, com um painel unificado, as ações de prevenção são mais rápidas e precisas.
Resposta Rápida e Análise Pós-Evento
Quando um risco é detectado, os alertas chegam imediatamente aos supervisores e à equipe de segurança. Em locais estratégicos, sinais sonoros reforçam a comunicação, e máquinas como empilhadeiras podem ser paradas automaticamente. Após a intervenção, começa a investigação para entender as causas, verificar autorizações e treinamentos, e evitar a repetição do incidente.
Essa análise transforma dados em aprendizado, aproximando a inteligência artificial de um modelo de segurança preditiva que não só alerta, mas também orienta melhorias contínuas.
Monitoração do Comportamento Humano na Operação
A tecnologia não se limita às máquinas e ambientes: monitora também o trabalhador. Na operação remota das pontes rolantes, que movimentam bobinas pesadas, sistemas identificam sinais de fadiga, como bocejos e sonolência, emitindo alertas para que o operador faça pausas e evite riscos causados pelo cansaço.
Fernando Neundorf, técnico responsável pela operação, explica que a mudança trouxe mais segurança ao tirar operadores de cabines elevadas, colocando-os em ambientes monitorados que avaliam seu estado físico e mental durante os turnos longos.
Pesquisa Aplicada para Soluções Reais
O Instituto SENAI de Inovação em Sistemas Embarcados, ligado à Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), atua desenvolvendo soluções de IA direcionadas a problemas reais das indústrias. Giancarlo Marchesini, líder da equipe de Inteligência Artificial e Machine Learning, reforça que o foco está nas necessidades operacionais e na busca por eficiência, não na tecnologia em si.
Projetos do instituto abrangem desde predição de vendas até inspeção de qualidade e monitoramento de EPIs, sempre buscando transformar dados em respostas práticas para melhorar processos e a segurança do trabalhador.
Inovação que Surge da Experiência dos Trabalhadores
O envolvimento direto dos operadores é fundamental. Com anos de experiência, eles conhecem os detalhes das máquinas e apontam onde a tecnologia pode ajudar. Essa contribuição de baixo para cima tem ampliado o alcance das soluções, tornando a IA uma ferramenta adaptada à realidade da operação, e não o contrário.
Durante a pandemia, por exemplo, tecnologias foram usadas para detectar aglomerações e riscos no ambiente de trabalho, criando uma camada extra de proteção que ganhou a confiança dos trabalhadores após demonstrarem seu valor prático.
Um Futuro de Segurança e Qualidade de Vida
Mais do que impulsionar a produtividade, a inteligência artificial tem se mostrado essencial para preservar vidas e melhorar a qualidade de vida no ambiente industrial. Em operações complexas e de alto risco, cada segundo é crucial, e a IA amplia a capacidade humana de prevenir acidentes.
A Safety Tower e seus sistemas conectados criam um espaço entre o risco e a resposta, onde a tecnologia funciona como um aliado que percebe o que poderia passar despercebido, evitando que acidentes aconteçam e garantindo uma rotina de trabalho mais segura para todos.
