Onda de calor intensa atinge o leste europeu
A Europa vive mais um domingo marcado por temperaturas elevadas, com a onda de calor se deslocando para o leste do continente. Alemães, poloneses, checos, húngaros e dinamarqueses enfrentam dias sufocantes, enquanto na França o calor começa a ceder após uma semana de recordes históricos e consequências graves para a população. De acordo com a AFP, pelo menos 191 milhões de europeus devem enfrentar temperaturas acima de 35ºC durante o domingo (28).
No sábado (27), diversos países bateram seus recordes de temperatura absoluta: a Dinamarca chegou a 37ºC, a República Tcheca registrou 40,6ºC e a Alemanha atingiu 41,5ºC. Um novo recorde foi também registrado na temperatura mínima noturna, com 29,4ºC em Kubschütz, no oeste alemão.
Medidas e adaptações diante do calor extremo
Em Berlim, a polícia recorreu a canhões de água para amenizar o calor para os moradores da capital. Eventos esportivos foram afetados: a meia-maratona de Hamburgo foi cancelada, enquanto as competições de ciclismo e corrida do Ironman em Frankfurt tiveram seus percursos reduzidos. A Filarmônica de Berlim flexibilizou seu código de vestimenta, permitindo que homens tirem os paletós e arregaçem as mangas devido aos 41ºC previstos.
Na Suíça, a cidade de Basileia quebrou pelo terceiro dia consecutivo o recorde de temperatura para um mês de junho, alcançando 39ºC. Já na Hungria, o exército foi mobilizado para distribuir milhares de garrafas de água em eventos públicos realizados em pequenas cidades, buscando evitar desidratação e problemas de saúde causados pelo calor.
Preparação e restrições em países do leste europeu
Na Romênia, o serviço meteorológico nacional se prepara para emitir alertas vermelhos a partir de segunda-feira, cobrindo quase todo o território, diante da previsão de “temperaturas extremas” e “noites tropicais” que podem se estender até 1º de julho. A Moldávia adotou uma medida para proteger as estradas, proibindo a circulação de veículos com peso superior a 12 toneladas entre as 10h e as 20h durante o período de 28 de junho a 1º de julho.
Resposta da União Europeia e contexto político
A reação da União Europeia tem sido discreta. A gestão imediata das ondas de calor é delegada aos Estados-membros, enquanto Bruxelas foca no fortalecimento da “resiliência climática” a longo prazo. O comissário europeu para a Ação Climática, Wopke Hoekstra, publicou uma mensagem breve no LinkedIn destacando a importância de proteger a saúde, os meios de subsistência e as economias contra riscos climáticos, mas sem declarações públicas mais amplas.
Um porta-voz da Comissão Europeia explicou que a responsabilidade pela resposta prática às ondas de calor e pela organização dos sistemas nacionais de saúde é dos países, tornando o papel da UE secundário na crise imediata. O Partido Verde Europeu, por sua vez, pede uma cúpula para reforçar medidas de proteção climática, enquanto a Comissão promete apresentar ainda este ano uma nova estrutura com regras e ferramentas para ajudar os Estados a prevenir e lidar melhor com os impactos do aquecimento global.
Impactos na saúde e balanço de mortes na França
Na França, apenas dois departamentos no extremo leste do país permanecem em alerta vermelho para altas temperaturas, que devem começar a diminuir na noite deste domingo. As autoridades já contabilizam cerca de mil mortes a mais que o esperado desde 24 de junho, quando as temperaturas ultrapassaram os 40ºC em todo o território, especialmente entre idosos acima de 65 anos. Foi registrado também um aumento de 40% nas mortes ocorridas em domicílios, segundo a Santé Publique France.
Philippe Juvin, chefe da emergência do hospital Pompidou em Paris, alerta para um impacto “muito pesado” e prevê que na segunda-feira (29) equipes que cuidam de idosos e empregadas domésticas encontrarão pessoas em condições graves ou até mesmo falecidas em suas casas, devido à desidratação e ao calor intenso.
A ministra da Saúde da França, Stéphanie Rist, afirmou à emissora BFMTV que o país provavelmente não enfrentará o mesmo excesso de mortalidade que em 2003, quando a onda de calor histórica causou 15 mil mortes.
Ondas de calor e mudanças climáticas: um alerta urgente
As ondas de calor recorrentes são um sinal claro das mudanças climáticas causadas principalmente pela queima de combustíveis fósseis. A atual situação pode ser agravada por uma “bolha fria” no Atlântico, uma área de águas anormalmente frias que influencia a corrente de jato atmosférica e favorece a formação de sistemas de alta pressão que estagnam sobre a Europa, como a “cúpula de calor” atual.
Marilena Oltmanns, especialista em oceanos e clima da Universidade de Bremen, explica que essa sequência de eventos faz com que a Europa aqueça mais rapidamente durante o verão que outras regiões do mundo. O paleoclimatologista Jean Jouzel, vice-presidente do IPCC, alerta que o episódio atual confirma as previsões feitas há 50 anos e que é fundamental que os cidadãos prestem atenção às advertências científicas para enfrentar os riscos reais dessa crise climática.
